Textos categorizados '82'

Sensacional

Estação Guilhermina Esperança. O sinal do metrô anuncia o fechamento das portas enquanto eu me esparramo pelo banco, recostando na parede do trem, pronta para relaxar os olhos quando uma senhora, de certa idade, negra, com uma bolsa na mão, salta para dentro do trem e corre na minha direção, de olho no lugar cinza vago ao meu lado.

Me endireito para não invadir o seu espaço enquanto ela, afoita, senta-se ao mesmo tempo em que conta, rápida e desorganizadamente, o que estava fazendo antes de descer as escadas rolantes e pular dentro do metrô. Tenho certeza que perdi detalhes importantes, mas entendi que ela voltava da igreja, onde assistiu a uma missa pelas almas, no bairro em que seu filho, já falecido, morou por muito tempo.

Não entendi porque ela me contava tudo aquilo, mas eu também estava, estranhamente, simpática aquele dia e a ouvia atentamente.
- dudiuspitchíndlish?
Eu fiz gesto de que não havia compreendido a pergunta e ela então supõe:
- Ah, você não fala inglês…
- Ah, inglês? Perguntei.
- É, do you speak english? (foi a pergunta que eu imagino que ela me fez)
Respondi que mais ou menos e ela me disse que também falava mais ou menos, emendando que a mãe dela, sim, falava inglês perfeitamente, também italiano, alemão, espanhol e outras mais que eu não lembro ou não entendi mesmo. O fato é que ela, a senhora ao meu lado, gostava de inglês e italiano. E se pôs a cantarolar um bom trecho de uma música em italiano. (A essa altura, algumas pessoas do metrô já prestavam atenção à nossa conversa). Ao final da cantoria, não me restou outra opção a não ser dizer: “Bravo!”

Feliz, ela me perguntou: – What’s your name?
Eu respondi e ela me disse o dela: “Eva. De ‘Eva e Adão’”. Disse essa ultima frase rapidinho de modo que soasse propositalmente como “É viadão”. E gargalhava.

Entre algumas histórias contadas durante as quatro ou cinco estações que viajamos juntas, ela me ofereceu alguns produtos – que ela dizia ser o remédio para a minha tosse – e comeu duas bolachas recheadas, que deviam estar aprisionadas no saquinho enrolado na bolsa há dias. Mostrou-me os calos das mãos enquanto eu desviava dos farelos que voavam em minha direção ao comer e falar comigo ao mesmo tempo.

82 anos e uma baita disposição. E a viagem para ela apenas começava. Levaria ao menos mais umas duas horas divididas em mais dois trens e um ônibus para chegar até sua casa, em Calmon Viana.

Descendo as escadas rolantes, repentinamente, ela me pergunta se eu havia visto a Dança do Faustão. Respondi que não e imediatamente ela me fala sobre o tango dos famosos e, já perto da catraca de saída, ela ensaia uma dancinha e suspira: “Ah, meus dezoito anos…”. “Se bem que eu dançava bolero, não era tango…”, dá-se conta.

Na despedida, ela pergunta novamente meu nome e, sem que eu questionasse, ela também diz o dela: “Eva, de ‘Eva e Adão’” e sai rindo em busca de um banheiro…


About me

Flávia Lima, jornalista especializada em energia que adora escrever, ama viajar e gostaria de ter mais tempo livre para "desperdiçá-lo" com coisas que realmente a deixam feliz...

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